De vez em quando, nós, cristãos num país livre, precisamos de um lembrete para não subestimar o valor de nossa liberdade, e sim, sermos gratos por elas.
Esse lembrete veio em um comunicado à imprensa em 25 de janeiro de 2024, da Alliance Defending Freedom (ADF) International, declarando que a Suprema Corte Nepalesa divulgou uma ordem dois dias antes para que um pastor cumprisse um ano de prisão por algo que ele fez em março de 2020.
Qual foi o crime? Convidar um casal para orar em sua casa.
A LINHA DO TEMPO DA PERSEGUIÇÃO
Em 23 de março de 2020, Keshab Raj Acharya, que pastoreia uma igreja em Pokhara, Nepal, recebeu um telefonema de um homem pedindo oração por sua esposa doente. O pastor Keshab os convidou para ir à sua casa para que ele pudesse orar por eles. Mas quando ouviu uma batida em sua porta naquela noite, ficou surpreso ao ver não o casal, mas quatro policiais. Eles tinham vindo para prendê-lo.
Como eles não estavam uniformizados, a esposa de Keshab só soube depois que eram policiais. Seus dois filhos eram muito jovens para entender o que estava acontecendo. "Nunca pensei que eles me prenderiam (...) porque eu orava pelas pessoas e pregava [o] evangelho", disse o pastor em uma entrevista para a ADF International. Enquanto estava na prisão, ele "clamava ao Senhor" preocupado com sua esposa e seus filhos pequenos.
Em 8 de abril de 2020, foi o aniversário de sua esposa. Ela havia pedido a Deus um presente: a libertação de seu marido. Naquele dia, ela recebeu um telefonema das autoridades pedindo que trouxesse o dinheiro da fiança dele. "Sentei-me com ele por um momento e orei, agradecendo a Deus por ter ouvido minha oração", disse ela à ADF International.
No entanto, ela relatou ter tido apenas 10 minutos com ele antes de ser algemado novamente — sob a acusação de "ultrajar sentimentos religiosos" e "proselitismo". Ele havia sido alvo não apenas por orar publicamente, mas também por compartilhar folhetos do evangelho, violando as leis anticonversão do país. Em novembro de 2021, foi condenado a dois anos de prisão e multado em 20.000 rúpias nepalesas (cerca de R$ 800,00); no entanto, em julho de 2022, o Tribunal Superior de Jumla (um tribunal de apelação) reduziu sua sentença para um ano após acatar um recurso.
Relatórios conflitantes sobre diferentes recursos e liberações de fiança tornam difícil determinar exatamente quanto tempo o Pastor Keshab passou atrás das grades, mas, de acordo com a ADF International, ele suportou "quase três meses de prisão antes de sua sentença". Desde então, ele está em liberdade sob fiança, esperando que a Suprema Corte do Nepal ouça seu caso.
Bem, em 23 de janeiro de 2024, a Suprema Corte, mantendo a decisão da Tribunal Superior, emitiu uma ordem para que Keshab cumprisse sua sentença de um ano. Sua única esperança agora é conseguir que a Suprema Corte reduza sua sentença para uma multa.
LEIS ANTICONVERSÃO
Comentando o caso de Keshab, um advogado da ADF disse: "Embora a constituição nepalesa contenha várias disposições que garantem o direito de praticar e professar a religião de sua escolha, há algumas disposições no código penal que restringem a prática cotidiana de sua fé. Infelizmente, o pastor Keshab foi vítima dessas disposições injustas".
Na verdade, as contradições sobre os direitos religiosos existem não apenas entre a constituição do país e seu código penal, mas dentro da própria constituição. Por exemplo, no Artigo 26, "Direito à Liberdade de Religião", a Seção 1 afirma que "toda pessoa que tem fé na religião terá a liberdade de professar, praticar e proteger sua religião de acordo com sua convicção", mas a Seção 3 afirma que "nenhuma pessoa poderá, no exercício do direito conferido por este Artigo, ... converter outra pessoa de uma religião para outra".
Mas e se sua religião exigir que você faça proselitismo pacificamente? Além disso, como alguém pode, conforme declarado nesse artigo, "professar" sua religião sem fazer proselitismo?
O Artigo 158 do código penal do Nepal não é tão sutil. A Seção 2 declara: "Nenhuma pessoa deve praticar qualquer ato ou conduta que prejudique a religião, a opinião ou a fé de qualquer casta, raça, comunidade ou converter qualquer pessoa em outra religião". E a penalidade por violar esse estatuto? "Uma sentença de prisão por um período não superior a cinco anos e uma multa não superior a cinquenta mil rúpias (cerca de R$ 2.000,00)" (Seção 3).
Essas leis anticonversão não foram criadas para proteger todas as religiões, mas apenas o hinduísmo, cujos adeptos representam mais de 80% da população do Nepal.
COMPARTILHANDO NOSSA FÉ
O que Jesus diz sobre nosso dever de fazer proselitismo? Três textos no livro de Mateus se destacam, revelando três fases do testemunho: passivo, reativo e ativo.
O testemunho passivo acontece diariamente quando permitimos que "brilhe a [nossa] luz diante dos homens" realizando "boas obras" que honram a Deus (Mateus 5:16). Em outras palavras, nossa vida diária demonstra o amor abnegado de Deus. Nessa fase, os cristãos estão relativamente a salvo das leis anticonversão.
Mas e se alguém nos abordar sobre nossa fé? Agora entramos na fase reativa. Ficamos em silêncio para não ofendê-los — ou, se estivermos no Nepal, para não infringirmos uma lei? Jesus explica nosso dever em Mateus 10: "Todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus; mas aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus" (vv. 32, 33). O Pastor Keshab estava nessa fase quando atendeu ao pedido de oração de um casal.
Finalmente, há a fase ativa do testemunho, que Jesus descreve em Mateus 28: "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo" (vv. 19, 20). O Pastor Keshab estava nessa fase quando distribuiu folhetos evangélicos, violando o código penal do Nepal.
Refletindo sobre seu tempo atrás das grades, o pastor Keshab disse: "Eu me tornei muito próximo Dele naquele lugar". Jesus também estará perto de nós quando obedecermos à Grande Comissão (v. 20).
Você está lutando para alcançar um ente querido no Brasil com o evangelho? Considere a possibilidade de enviar a eles uma cópia de nossa revista de testemunho.