No sucesso de bilheteria de 1956, Os Dez Mandamentos, o Faraó de Yul Brynner e o Moisés de Charlton Heston entram em uma guerra de vontades. Depois de perder seu exército no Mar Vermelho, o Faraó finalmente admite a derrota na última fala de Brynner: "Seu deus — é Deus”.
Na época, Os Dez Mandamentos foi o filme mais caro já feito, com um orçamento de US$ 13 milhões. No entanto, também foi um dos mais bem-sucedidos financeiramente. Em sua primeira exibição nas bilheterias, arrecadou cerca de US$ 122,7 milhões — cerca de US$ 1,3 bilhão atualmente. O filme também ganhou um Oscar de Melhores Efeitos Especiais depois de ter sido indicado a sete prêmios da Academia.
De fato, esse clássico da Paramount Pictures causou tanto impacto na cultura americana que o acessório dos Dez Mandamentos de Heston está agora em leilão. Estima-se que as duas tábuas, carregadas pelo ator na cena do bezerro de ouro, sejam vendidas por até US$ 80.000,00.
IdOLATRIA DISFARÇADA
Se você acha que US$ 80.000,00 é um valor absurdo por um adereço de fibra de vidro que dificilmente se assemelha ao real, considere dois outros itens do filme que foram vendidos em leilões anteriores. A túnica que Heston usou ao interpretar o Moisés barbudo foi vendida por US$ 447.000,00, e seu cajado do Mar Vermelho foi vendido por US$ 448.000,00. As vendas desses acessórios excederam em muito suas estimativas originais, o que significa que as tábuas dos Dez Mandamentos poderiam ser vendidas por um preço semelhante.
A ironia aqui não pode passar despercebida. Enquanto a cultura popular desvaloriza a lei de Deus, ela idolatra um acessório em seu lugar.
Algo semelhante aconteceu com o éfode de Gideão. O éfode do sumo sacerdote era uma vestimenta externa que segurava o peitoral contendo "o Urim e o Tumim" (Êxodo 28:30), as pedras por meio das quais Deus indicava Sua vontade (Número 27:21; 1 Samuel 23:9–12; 28:6). Quando Gideão fez um éfode de ouro para os homens de Israel, ele parecia estar desviando a atenção deles de seu governo para o de Deus (Juízes 8:23). Mas a versão de Gideão não estava de acordo com o projeto de Deus. "Tornou-se um laço" — um substituto barato para a verdadeira adoração — "e todo o Israel se prostituiu ali após ela" (v. 27).
Mas até mesmo um objeto de origem divina pode se tornar um ídolo, como a serpente de bronze que Moisés foi instruído a fazer. Depois que o profeta a colocou em um poste, quem quer que olhasse para ela viveria depois de ser mordido por "serpentes abrasadoras" (Números 21:6, 8). Esse objeto apontava para Cristo tomando o lugar do pecador na cruz. No entanto, durante o reinado do rei Ezequias, encontramos os israelitas adorando o objeto em vez d'Aquele para quem o objeto apontava. Assim, o rei "fez em pedaços a serpente de bronze que Moisés fizera, porque até àquele dia os filhos de Israel lhe queimavam incenso" (2 Reis 18:4).
O perigo de adorar o tipo no lugar do antítipo talvez seja melhor ilustrado na forma como os judeus reverenciavam seu templo. Em vez de ver em seus serviços "o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (João 1:29), eles destruíram Aquele que era seu templo antitípico (João 2:19), mesmo jurando "pelo ouro" do templo típico (Mateus 23:16). Quando Estêvão disse ao Sinédrio que "o Altíssimo não habita em templos feitos por mãos de homens" (Atos 7:48, ACF), "enfureciam-se no seu coração e rilhavam os dentes contra ele" (v. 54). Como ousava acusá-los de idolatria?
FICÇÃO BÍBLICA
A acusação de Estêvão se aplica a todas as culturas que se dizem cristãs atualmente. Se Deus não habita em objetos que apontam apropriadamente para Ele — objetos cujo propósito é ilustrar Sua habitação em nós (1 Coríntios 3:16) —, Ele certamente não habita em dramas que pervertem Sua Palavra sagrada.
Muitos dos chamados filmes "cristãos" não passam de ficção histórica — como Os Dez Mandamentos. Poderíamos passar horas discutindo as imprecisões desse sucesso de bilheteria, mas isso seria uma perda de tempo, então vamos apenas analisar o acessório que está à venda. De acordo com um arqueólogo bíblico: "Não há palavras reconhecíveis escritas nas tábuas. Não são os Dez Mandamentos que estão escritos nelas”.
Então, por que os licitantes pagariam US$ 80.000,00 (e possivelmente muito mais) por uma versão da lei de Deus cujas antigas letras em paleo-hebraico soletram apenas palavras sem sentido? Porque estão comprando uma peça de Hollywood, não das Escrituras.
Para se assemelharem ao granito vermelho do Monte Sinai, as "tábuas de fibra de vidro foram pintadas à mão com pátinas vermelhas e pretas ligeiramente diferentes... e intencionalmente moldadas com pequenas irregularidades para se assemelharem ainda mais à pedra cinzelada". Isso pode se assemelhar exatamente ao segundo par de tábuas que Moisés teve de cortar (Êxodo 34:1). Mas o primeiro par, que ele quebrou, foi feito pelo próprio Deus (24:12) e, portanto, não tinha irregularidades. Além disso, o versículo 10 indica que essas primeiras tábuas foram feitas "de pedra de safira, que se parecia com o céu na sua claridade".
Ao ignorar esses detalhes, as Escrituras são pervertidas. Mas a maior perversão está no fato de misturar a narrativa sagrada com elementos que atraem o viciado em cinema comum. Em sua essência, Os Dez Mandamentos é um drama romântico— um triângulo amoroso entre Moisés (Heston), Nefertari (Anne Baxter) e Ramsés II (Brynner). A rainha ama um, mas está presa ao outro. "Oh Moisés, Moisés", diz ela antes de se jogar nos braços do profeta."Por que, dentre todos os homens, eu me apaixonei por um príncipe de tolos?"
Desde 1956, a lição para os cristãos não mudou: quando se trata da Bíblia, nada do que Hollywood toca permanece incorrupto.
Uma coisa que podemos apreciar, entretanto, é a frase de Heston enquanto segura os Dez Mandamentos diante dos adoradores do bezerro de ouro:"Não há liberdade sem lei". De fato, a liberdade é o que torna a lei de Deus mais valiosa do que um adereço de cinema - mais desejável "do que o ouro, sim, do que o ouro fino!" (Salmo 119:127).
Para saber mais sobre o valor dessa liberdade, assista à apresentação do Pastor Doug: “Leis de Amor e Liberdade”.